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Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

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publicado às 21:44

A cultura americana e o cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.16

 

 

Neste rio sem regresso navegam filmes do cinema americano que vi na infância na televisão a preto e branco, na adolescência no cinema, e mais tarde nos DVDs, nos CDs e nos canais por cabo.

O cinema americano serviu e divulgou a cultura americana mas também deixou as suas marcas culturais, uma certa inovação nas ideias e nos comportamentos, uma certa irreverância crítica, uma certa frescura a saber a futuro.

 

Peguei nesta ideia da influência mútua, cultura americana e cinema, para iniciar uma série no It Happens Every Spring, de um filme por semana até às próximas eleições americanas em Novembro. A ideia inicial era tentar perceber o fenómeno Trump. Como era possível esse fenómeno na América do séc. XXI? A verdade é que soma votos populares nas Primárias e segue para Bingo no partido Republicano.

A pouco e pouco, e ouvindo alguns experientes jornalistas independentes, comecei a vislumbrar a complexidade do fenómeno e a razão da sua popularidade. O fenómeno deve o seu motor ao próprio sistema político americano, à sua decadência, à sua adulteração, aos seus desvios democráticos. Os partidos deixaram há muito de representar os cidadãos para representar os grandes grupos corporativos, e tudo isto ficou mais visível depois de 2008 ao socorrerem os bancos (a finança, o mundo virtual) e deixarem na rua famílias inteiras (a economia, a vida real).

 

O primeiro filme desta série é um Preminger, The Man with a Golden Arm. O jazz acompanha as personagens, o ambiente claustrofóbico e decadente dos vícios, as terríveis dependências compulsivas que destroem a vida, os afectos, o futuro. O que salva Frankie é a amizade de Molly.

É interessante ver como a amizade é compassiva mas não é cobarde. A partir do momento em que se aceita arriscar o salto para o desconhecido, a privação de uma substância, o pesadelo será enfrentado pelos dois. São dois seres livres os que conversam calmamente nessa manhã.

A amizade talvez seja o afecto mais verdadeiro e genuíno entre pessoas livres. É isso que sobressai no filme. A manipulação egoísta e doentia que o espera em casa acaba por ser desmascarada. Os manipuladores são fracos, apesar de abusarem do poder sobre outros. 

 

 

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publicado às 20:52

O diário das tartarugas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.05.16

 

 

Este é o título original de um filme de 85 com a Glenda Jackson, o Ben Kingsley e o Michael Gambon. Porque foi este filme que me chamou hoje... é que não sei.

Este rio sem regresso fala muito de liberdade (palavra gasta), de amor maternal, de amizade. Não será essa a fórmula perfeita para o Dia da Mãe?

 

Esta amizade surge a partir de um ponto comum e de um local específico: o aquário das tartarugas gigantes no zoo de Londres. Ambos solitários e ambos fascinados pelas tartarugas e por uma ideia que começa a germinar: libertá-las no mar. Este plano concretiza-se com a ajuda inestimável do tratador. Instruções precisas sobre as condições de transporte, caixas de madeira com determinadas medidas, abertas em cima, paragens periódicas para as brindar com baldes de água por cima, instruções que cumprem à risca.

 

Paralelamente, o filme revela-nos a vida quotidiana, para uns aterradora porque inimiga da criatividade, para outros pela terrível solidão. 

 

Seja em que idade for, um plano como este, em que se beneficia a vida de alguém, e aqui não são apenas as tartarugas, mas todos os envolvidos na aventura, é sempre bem-vindo.

 

Glenda Jackson é uma actriz muito especial. Ainda não estava a navegar neste rio. Assim como Michael Gambon e a sua voz profunda.

 

 

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publicado às 11:18

Este Natal escolhi um guião e o piano de Sakamoto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.11

Este Natal escolhi um filme que em si não é uma obra de arte, nem sequer um filme virtuoso em termos de linguagem do cinema, mas tem um guião com imensas potencialidades, um guião assim podia pertencer a uma obra-prima, e tem personagens fabulosas bem defendidas pelos actores.

Como muitos filmes americanos das décadas mais recentes, segue determinados clichés na sua rota, refiro-me à própria questão da construção das personagens, são personagens-tipo para o bem e para o mal, e também ao desenvolvimento do guião a partir do primeiro terço do filme.

E há a questão da solução final para os encontros e dilemas, e a questão da banda sonora, mas disso podemos tratar já, será o piano de Sakamoto (o que tenho ouvido ultimamente): “Aqua”, “Koko”, “Amore”.

 

Se quisermos pensar em Natal este filme tem lá tudo: a futura mãe, uma mãe muito jovem e vulnerável, a esperança da vida esse milagre maior, a disponibilidade da sua natureza benéfica a reflectir-se na disponibilidade de desconhecidos que com ela se cruzam.

Este guião surpreende pela sua enorme força inicial: uma rapariguinha é abandonada pelo namorado no Wal-Mart. Daí para a frente constrói as rotinas da sobrevivência para si e para a bébé que vai nascer. Mas não estará sozinha.

Perguntamo-nos se isto é verosímil, defendo que sim, que é verosímil na sua simplicidade e complexidade, isto acontece na vida real. Porquê? Porque esta rapariguinha representa todas as pessoas aparentemente frágeis mas terrivelmente fortes na sua tranquilidade e constância, na sua natureza amorosa. Muitas vezes são presas fáceis de gente sem escrúpulos, isso também é verdade, mas muitas outras vezes recebem de volta o amor que expandem. Esta é para mim a melhor aproximação possível do espírito do Natal: esta disponibilidade afável e amorosa.

 

Aqui as mulheres são-nos apresentadas numa certa diversidade de tipos e na sua força e fragilidade, cometem erros e voltam a recompor-se, desde a alcoólatra generosa à mãe solteira vítima de predadores sexuais, passando por esta rapariguinha que descobre na fotografia (o registo da vida) a sua expressão no mundo.

Os homens aqui também na sua variação possível, do pior ao melhor, e com a possibilidade de redenção final mas após terem estragado tudo (no caso do namorado).

 

Procurem rever este filme sem preconceitos cinematográficos ou outros e terão uma agradável surpresa. Natalie Portman está perfeita aqui…

 


 

 

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publicado às 17:12

E tudo começou num simples memorando, numa lista de intenções...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.05.11

 

Este rio saltou o mês de Abril, já repararam? Passou por uns rápidos tão agitados que por pouco a nossa frágil jangada se despedaçava nos rochedos laterais. Quando a água atravessa uma garganta subitamente estreita e há um desnível no leito, tudo se torna violento e ensurdecedor. Essa é a incrível força da natureza. E da vida também. A lógica da vida segue a lógica da natureza. A Marilyn desmaia de exaustão, o miúdo grita o seu nome e pergunta ao pai se ela vai morrer. O Robert Mitchum terá de a reanimar e tudo volta à rotina pacífica dos dias e das noites, mas não por muito tempo. Todos sonham com essa paz doce e amena, mas a vida terrena não permite tal ideal de vida, talvez porque a própria natureza desconhece essa quietude, e a vida exija constante agitação. Afinal, estar vivo é estar activo, é estar a mudar constantemente.

 

Neste outro filme, Jerry Maguire, há também um homem, uma mulher e um miúdo. Este filme sempre me impressionou, porque mostra uma perspectiva que raramente vemos nos relacionamentos: o início de uma colaboração baseada na inspiração de um simples memorando. O homem que se inspirou e escreveu um memorando, e com esse memorando inspirou a rapariga. Era apenas uma lista de intenções, dir-lhe-á quando se viu fora da empresa. Esta cena é das mais interessantes que eu já vi em filmes sobre as relações de poder em grandes empresas e sobre o trabalho competitivo. A rapariga acompanha-o nessa saída, inspirada pelo que leu nesse memorando. Acredita nele e segue-o. Mais tarde, ele dirá ao amigo que essa fora a razão de ter casado com ela: foi leal.

 

Bem, antes de se lançar nessa aventura dos afectos, da definição de um lugar familiar, podemos mesmo dizer que houve uma revolução na vida deste homem de discurso fácil e sorriso sedutor. A lógica da sua vida já não é suficiente. E só vê isso quando está na mó de baixo. A reacção da namorada não o satisfaz: culpa-o de ser um falhado. Talvez só nessa altura ele tenha percebido que a sua relação tinha bases muito pouco sólidas. Acaba por terminar ali mesmo o compromisso, levando ainda dois valentes murros de uma namorada em fúria.

É nesse estado, confuso e fragilizado, que aparece à rapariga leal. Um outro equívoco surge: fica encantado com o filho da rapariga. Criam de imediato uma cumplicidade bem-humorada. Também dirá ao amigo a outra razão de estar com ela: o miúdo é engraçadíssimo.

 

A cena mais sexy do filme: quando ele a leva a casa. É talvez a mais sexy que alguma vez vi à porta de casa de uma rapariga (e nos filmes americanos eles vão acompanhá-las mesmo à porta e ficam à espera do beijo). Registei a banda sonora da cena, porque a cena é deliciosa: ela no seu vestidinho preto, de alças, ele todo sedutor e insinuante.

 

É claro que, como a maioria das comédias românticas americanas, está cheia de clichés, (mas até não são dos piores, como um dia ainda hei-de aqui referir, tenho toda uma lista deles), mas o filme é, pelo menos para mim, mais do que uma simples comédia romântica.

Retrata o mundo competitivo dos agentes desportivos, mas também o mundo competitivo dos jogadores profissionais, os riscos que correm, em que um erro na sua carreira pode pôr tudo a perder.

Fala da amizade e da lealdade: não apenas do Jerry e da rapariga, mas também do Jerry e do jogador que representa.

Mostra os equívocos iniciais de uma relação amorosa e a complexidade das razões que a mantêm. E que, mesmo começando com o pé esquerdo, se pode retomar o caminho, porque o que os liga é muito mais forte do que inicialmente pensavam.

 

Mas a mensagem mais importante do filme está na discussão entre Jerry e o jogador: tens de jogar com o coração... não pode ser calculismo financeiro, tem de haver paixão.

Bem, o jogador irá despertar em si mesmo essa paixão nos jogos seguintes, sem dúvida, até ao jogo memorável, em que toda a assistência fica na expectativa quando desmaia na sequência de uma queda aparatosa. Minutos de aflição da mulher, dos filhos e do Jerry. Quando finalmente acorda e antes de se levantar, diz ao treinador, com ar malicioso: Deixem-me saborear isto só um pouco mais. Uma cena fabulosa e hilariante!

 

A família, aqui vista como um lugar-refúgio, no meio de um mundo cínico, muito competitivo e hostil. E a amizade, como base das relações, mesmo as profissionais.

A identidade como construção a partir de experiências vividas, como o que se lê no olhar de outros: o homem que ele quer ser... o homem que ele pode ser...

 

 

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publicado às 11:05

Os meus heróis: Robert Preston, o amigo franco e leal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.10

 

E aqui vai outro dos meus heróis, Robert Preston, o actor-personagem da franqueza mais desarmante e da amizade leal. Se o viram como eu em vários filmes devem ter reparado nesse olhar tão despido de artifícios ou sombras. Mesmo a enfrentar uma rejeição, e uma rejeição sem-cerimónias como aquela da Debbie Reynolds em How West was Won, Robert Preston não desarma, insiste com a mulher mais teimosa e arisca que tinha encontrado, que ele é que a saberá apreciar. Ainda por cima irá conhecer o seu rival e verificar que aquela mulher escolhera o homem errado, um homem que não a merece. Estas coisas acontecem, aliás estão sempre a acontecer, e não é só às mulheres, aos homens também. Desencontros, equívocos, atracções fatais.

 

Mas vamos começar pelo princípio. Porque fui eu buscar Robert Preston ao baú das memórias? Nem eu sei, mas este actor teve desde logo um efeito tranquilizante, aquele ar franco, sem artifícios, mesmo nesse insólito papel no Victor, Victoria. Nunca resisto a rever as cenas com o Robert Preston, aqui na pele de um velho drag queen, amigo leal e criativo da Julie Andrews. Desde a cena do restaurante, dois esfomeados em Paris, até ao espectáculo em que, vestido de sevilhana, canta e dança no palco. Robert Preston é o amigo das horas difíceis, criativo, divertido e generoso. Dirá sempre o que pensa, sem subterfúgios nem evasões.

 

Outro dos seus papéis mais enternecedores é muito pouco conhecido. Vi-o uma única vez na televisão, talvez nalgum ciclo dos anos 90. O próprio filme, Finnegan Begin Again, é já dos anos 80. Nele vemos um Robert Preston sessentão que se apaixona por uma mulher muito mais jovem, Mary Tyler Moore. O filme é uma magnífica inspiração para quem não quer desistir de comunicar de forma afectiva, de apoiar e ser apoiado, animar e ser animado. Encontram um no outro o apoio e o carinho. Finalmente, o Robert Preston tenta mostrar à Mary Tyler Moore que a sua diferença de idades é um problema real. A cena final foi a que registei na memória para sempre. Vemo-los deitados no chão da sala, muito descontraídos, pelo menos é assim que recordo a cena. Ele diz-lhe: Mas eu estou a cair do tripé... Ela responde: Prefiro dois anos contigo do que dez com outro homem. Se esta não é uma magnífica declaração de amor, então o que é?

 

Identifiquei-o mais recentemente num pequeníssimo papel, num filme que desconhecia e que aqui coloquei a navegar, Reap the Wild Wind. Ainda muito jovem mas já com aquela voz inconfundível.

Essa é a sua marca registada, aquela voz... uma voz grave, cantante, que nos assegura que podemos contar com ele. Uma voz assim que nos anima quando queremos desistir, que nos ajuda a ver um caminho possível. É isso que esperamos de um amigo franco e leal. Que nos ouça nas horas tardias e nos enxugue as lágrimas, como naquela magnífica cena do Victor, Victoria, quando a Julie Andrews descobre que o vestido tinha encolhido.

Ao longo destes anos de filmes tê-lo-ei visto em mais um ou dois, mas ainda não consegui identificá-los. Já corri a lista do IMDB, mas nem assim... Descobri, no entanto, que fez muita Broadway (não admira) e muita televisão (não sabia).

Robert Preston é um dos actores que me marcaram para sempre, como se fossem personagens com que interagi na vida real. O seu olhar, o seu rosto largo, e a sua voz magnífica...

 

 

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publicado às 21:39

Tudo está no nosso olhar

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.07.09

Out of Rosenheim (Café Bagdad). A chegada da mulher estrangeira ao Café Bagdad, de mala na mão, deixando um marido para trás. E ainda por cima a mala errada, com as roupas dele.

Os estranhos habitantes daquele motel ao lado do Café e das bombas de gasolina, perdidos naquele deserto. A começar pela dona do negócio, Brenda, uma mulher histérica e irascível.

A aproximação das duas mulheres que irão formar uma verdadeira equipa, depois de muitas atribulações. O contraste entre elas é aliás fabuloso. A mulher calma e afectuosa, por quem o pintor ficará desde logo fascinado, irá suavizar o clima geral do café, a começar pelo pó acumulado, pela desarrumação, pelo mau-humor.


Aqui são circunstâncias improváveis que trazem novas formas de ver a vida e de a viver. Tudo está no nosso olhar. Como olhamos o outro. E como olhamos a vida.


Há uma cena muito simples e muito poética, da mulher a correr atrás de um boomerang. E do pintor a olhá-la, hipnotizado. Irá conseguir pintá-la. E um dos quadros ficará a somar os dias até ela voltar.

Uma das cenas finais é absolutamente indizível: magnífica Marianne Sägebrecht! Toda a claridade e frescura naquele yes! E magnífico Jack Palance! Repararam naquele sorriso luminoso de Jack Palance?

 

 

 

Coincidências interessantes: Já aqui dediquei um post a um outro filme, igualmente num local isolado, no meio do nada, e com um café onde se servem refeições e umas bombas de gasolina: The Petrified Forest. Com cerca de 50 anos de diferença entre si, em ambos surgem dois viajantes, aparecidos do nada: no primeiro é um escritor-nómada, neste uma mulher que acaba de sair do carro ali mesmo, em plena estrada. Só que no primeiro é uma jovem amável e generosa que recebe o viajante e neste é uma mulher irascível e desconfiada que encara a recém-chegada. Mas tanto o viajante como a recém-chegada irão alterar de forma profunda e definitiva a vida dos que os acolhem. Bem, neste a alteração é muito mais abrangente: a recém-chegada terá uma influência benéfica em toda a gente, por assim dizer: a começar pela mulher com o tal péssimo feitio, passando pelos seus dois filhos, uma miúda que ainda anda à deriva e um rapaz que toca piano de forma obsessiva. Já para não falar do pintor, que vê nela, e de um relance, uma luminosidade e suavidade invulgares. Que por ela fica verdadeiramente fascinado. E que terá de a pintar e de a guardar consigo. Bem, e não fica por aqui: a sua energia e criativadade transformam aquele café para sempre, ficará tudo arrumado e a brilhar, e os viajantes, neste caso camionistas de longo curso, terão direito a espectáculo musical com números mágicos incluídos.

 

 

 

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publicado às 15:06

O valor intrínseco de cada indivíduo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.10.08

 

Um grupo de vadios, inadaptados ou excluídos (como agora estranhamente se diz), uma zona de fábricas de conserva abandonadas, uma casa de meninas onde diversos espécimens vão dar à costa, um rebelde estudioso de biologia marinha em regime independente, que anda a preparar um livro que nunca termina... John Huston como Narrador... e tudo filmado em estúdio... Mais um produto mágico, uma síntese feliz... Cannery Row...

John Huston, que sempre compreendeu os inadaptados, aqui a enlevar-se com o texto magnífico de John Steinbeck.

 

Se observarmos este grupo de vadios vemos que revela qualidades que dificilmente encontramos nos socialmente adaptados. Não acreditam? Afecto genuíno, lealdade, amizade, protecção do mais frágil, coesão de grupo. Ainda que os seus métodos sejam... enfim, muito discutíveis.

Revelam, além disso, uma surpreendente capacidade de organização: passam a vida a angariar uns tostões em preparação de festas e nem precisam de grandes razões para festejar. O resultados dessas festas é invariavelmente uma bebedeira monumental e a destruição da casa-laboratório do Doc...

Este grupo de vadios, além destas qualidades tão mal encaminhadas, pratica ginástica matinal (muito aldrabada) e ainda programa de vez em quando uns jogos de baseball com as meninas da Casa.

Ah, e faltam aqui duas personagens importantíssimas para completar a história: o Visionário e a Rapariga. É até com eles que a história começa: a Rapariga, de mala na mão, chapelinho na cabeça e longo casaco (anos 40), surge naquele lugar improvável e vê, numa rocha à beira-mar, um saco de papel. Aproxima-se. Pela sofreguidão com que pega num pão vemos que vem esfomeada. O Visionário aborda-a. A Rapariga atrapalha-se e volta a colocar o pão no saco, constrangida. O Visionário então diz-lhe esta coisa extraordinária, que Deus cuida dele, e que coma à vontade.

Só mais tarde a Rapariga, que é muito observadora, verá que Deus é o Doc que, subrepticiamente, coloca lá os sacos para o Visionário.

Entretanto, a Rapariga, que não encontra trabalho por ali em lado nenhum, nem mesmo no único café, acabará por ir parar à Casa das Meninas. Inicialmente relutante. Não parece talhada para aquele papel. A Madame, consciente disso, desafiará o Doc a encaminhá-la para outra solução.

 

Cenas fenomenais:

- A preparação do Doc antes de ir jantar com a Rapariga, em que terá de voltar a casa vestir-se a rigor para não contrastar com ela;

- Toda a cena do jantar a dois, descrita e acompanhada pela voz encantatória de John Huston;

- A dança acrobática (loucos anos 40) do Doc e da Rapariga, esta vestida de Pastorinha (para estimular as fantasias dos visitantes);

- A preparação da festa para o Doc, pelo nosso grupo, que inclui uma verdadeira "caça às rãs" para vender e angariar os preciosos tostões;

- O jogo de baseball, vadios e meninas, em que o Visionário revela todo o seu talento para o desporto;

- Os dilemas éticos de Hazel, o vadio mais ingénuo, o mais generoso também, e o mais protegido pelo grupo; e a sua terrível decisão-limite, para ajudar um amigo em sofrimento...

 

Para chegar à ideia que dá razão de ser ao título, "o valor intrínseco de cada indivíduo", ainda preciso de pedalar mais um pouco. Agradeço desde já a paciência dos viajantes que toleram as minhas interrupções... Às vezes inicio caminhos a pique para os quais não tenho o fôlego necessário... pelo menos para os trepar de uma só vez...

 

Estes Vadios não incomodam ninguém. E como diz a Madame à Rapariga, não gostam de falar do passado. Se tentarmos ser objectivos, veremos que há incluídos e adaptados a fazer mais estragos sociais do que estes Rapazes (the boys). John Steinbeck (e também John Huston) olham a vadiagem sem qualquer interferência moralista, apenas como um facto, uma realidade.

Quando conseguirmos olhar cada indivíduo pelo seu valor intrínseco, pela sua própria existência, esta distinção incluídos-excluídos nem se coloca. Todos serão incluídos, pelo simples facto de existirem. Mas o facto de existirem não obriga ninguém a seguir os passos miméticos de uma sociedade que até se pode considerar, no mínimo, doente e decadente. Porque numa sociedade saudável, ou que disso procura aproximar-se, cada indivíduo será respeitado por si mesmo. E ao ser respeitado por si mesmo, mais facilmente encontrará o seu lugar e o seu percurso natural. Não haverá lugar para moralismos, paternalismos, imposições, porque já não farão sentido.

 

Mas há em Cannery Row outro ângulo interessante: o valor responsabilidade. O Doc sente-se responsável pelo Visionário. Ninguém precisa de lho lembrar. Assume essa responsabilidade como um valor próprio da sua natureza. E também em relação à Rapariga, o Doc descobre a seu tempo, que ela é muito mais importante na sua vida do que teria desejado no início. É ultrapassado pelos acontecimentos. Quando ganha coragem para lho confessar, vê-a distante, implacável. E  percebe dolorosamente que a perdeu. E que há erros na vida que simplesmente não conseguimos consertar.

A conversa na Caldeira (a nova habitação da Rapariga, que agora já trabalha no café), é verdadeiramente comovente. Claro que só mesmo a intervenção de alguém como Hazel poderá compor este desencontro. Só alguém com uma infinita ingenuidade poderá descobrir a solução-limite para o sofrimento do Doc. A Rapariga tinha-lhe dito que lhe levaria uma sopa se estivesse doente ou com um braço partido. O destino do Doc fica inscrito nestas palavras casuais da Rapariga.

Mas voltando ao valor "responsabilidade pelo amigo": o Doc mal sabe tomar conta de si próprio! É um cientista autodidacta e rebelde, que vive sozinho numa casa-laboratório rodeado de espécimens marinhos. E no entanto... cuidará do amigo até ao fim. É mais do que poderemos encontrar na sociedade socialmente organizada, não acham?

Mas trata-se de John Steinbeck! O autor d' As Vinhas da Ira que John Ford traduziu para a linguagem do Cinema naquele impossível preto e branco, naquela atmosfera única! E o autor, igualmente, de um dos livros mais perturbadores que eu já li: A um Deus Desconhecido. Alguém me sabe dizer se já houve alguém a tentar traduzi-lo para linguagem do Cinema? Dava um filme mágico!

 

 

 

Obs.: É deste filme uma das minhas lines preferidas. Depois da dança acrobática, a Rapariga que é uma fanática de baseball, fala dessa época de glória do Doc quando era uma estrela do baseball, não entendendo porque largou tudo assim, repentinamente, e deixa cair no meio da conversa o nome Louis Delano. O Doc senta-se no sofá e diz incrédulo e escandalizado: Eih! Louis Delano!? Quem tu foste logo escolher para ser o teu herói!? É uma das lines que utilizo frequentemente sempre que vejo alguém ser colocado num qualquer pedestal sem qualquer mérito próprio.

 

 

 

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publicado às 17:34

A interpretação humana da lógica divina

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.09.08

 

The End of the Affair. Inclinei-me, depois de o ver, para esta ideia essencial: a interpretação humana da lógica divina, pois aqui vemos uma forma muito intensa e absoluta de se relacionar com o divino.

Mas também podia ser: cuidado com as promessas que fazemos no plano extraordinário. Uma promessa pode ficar registada para sempre num lugar a que dificilmente podemos ter acesso. Impossível desprogramar.

E também podia ser: não se pode agarrar uma ave em pleno vôo. Agarrar, para natureza masculina; vôo, para natureza feminina. É assim que as duas naturezas nos são aqui reveladas, assim mesmo, tão diversas!

 

2ª Guerra Mundial. Este pormenor é muito importante, porque vai definir o fim de um relacionamento amoroso. Mas antes, vemos uma mulher que vive a tranquilidade de um casamento-amizade. E quando o amor surge, o amor irá impor-se. Ele, um escritor de personalidade intensa e absorvente.

O amor não é prudente. Um dos seus encontros é subitamente perturbado por um bombardeamento e o prédio onde estão é atingido. Ele saíra do quarto para ver o que se passa e é apanhado em pleno vão das escadas, caindo de uma altura considerável. Quando se aproxima dele, desesperada, ela vê-o imóvel, pálido, sem vida.

Volta ao quarto, ajoelha-se e pede o impossível. Que ele viva! Mas para pedir esse impossível segue a lógica da promessa que envolve o maior sacrifício possível: se ele viver, renuncia a ele, ao amor.

Esta é a forma dela se relacionar com o divino: há sempre um preço elevado a pagar pelo amor e pela felicidade.

 

E o impensável acontece. Ele surge ali, ao seu lado... atordoado, balbucia o seu nome... E ela percebe. E o que percebe é: Deus dá-lhe a vida, a ele, em troca da sua, dela, razão de viver, da possibilidade do amor.

Ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido.

A promessa está feita. E num tal momento de aflição, fica impressa no tal lugar a que dificilmente voltará a ter acesso, para a desprogramar. Quando ele surge ali, vivo, é toda uma outra realidade, uma outra dimensão, do inexplicável, do irreal.

 

Interrompo aqui por momentos para assimilar e organizar melhor as ideias. Este é um dilema filosófico que me fascina pela sua dificuldade. É que ainda estou muito longe de uma saída compreensível...

 

... Onde ia eu? Ah, sim... Ela ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido. Um turbilhão de sentimentos e emoções invade-o, acentuando o seu lado obsessivo e possessivo. Inicialmente quer apenas perceber, para poder aceitar. Aquela corrida, a coxear da queda, debaixo de uma chuva constante, atrás do carro... é de partir o coração... O coração (dele) fecha-se, petrifica-se. A dor da perda, sem compreender a razão, torna-o frio e cruel.

Só muito mais tarde, quando lhe surripiar o diário (dela), uma prova, um facto concreto a que se agarrar (comportamento tão masculino!) é que percebe que o que realmente se passou ocorreu numa outra realidade, a lógica de uma interpretação da lógica divina. Uma forma absoluta de se relacionar com o divino. Sim, ele percebe, mas não aceita.

 

Voltarão a encontrar-se. Ela dir-lhe-á que não tem forças para resistir ao amor. Mas sabe qual o preço a pagar: o fim, a saída de cena.

Os dois homens acompanharão esse fim juntos. Ambos sofrem, mas cada um à sua maneira. Um, porque nunca concebeu a sua vida sem ela e acha que não vai suportar a dor (o marido). O outro, talvez para amortecer o impacto da dor, alimenta a revolta: contra Deus, contra a vida, contra o mundo.

Li algures que as personagens que aqui nos despertam mais simpatia e compaixão são a mulher e o marido. Talvez... mas aquela corrida desesperada, sem nada compreender, e depois, mesmo tendo percebido, sem conseguir aceitar, toda essa revolta...

 

Bem, ainda não é desta que me aproximo de uma saída para este dilema... das condições da promessa... para pedir o impossível... Nova interrupção, pois...

 

... A ver se é desta. Voltemos às condições da promessa (dela): para que ele viva, compromete toda a sua vida a partir daí, a possibilidade do amor. Podemos questionar: Mas então porque não pediu simplesmente que ele viva?

Será que me aproximo de uma saída plausível se disser que o seu pedido, de tão extraordinário, na dimensão divina, teria de ser completamente e inequivocamente altruísta? De uma total abnegação? Teria de ser apenas por ele, para que ele possa viver, para que a sua vida lhe seja devolvida, e não para si mesma? E que essa era a condição da sua possibilidade?

É como se tivéssemos interiorizado estes princípios: nada nos é dado que não tenha de ser devolvido (a vida, em primeiro lugar); tudo tem um preço e nada é garantido (os imponderáveis); pedir o impossível só abnegadamente.

 

 

 

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publicado às 17:49

 

Forrest Gump. Ultrapassar as limitações que a vida lhe trouxe. Aproveitar todas as oportunidades que lhe surgem. Enfrentar cada situação em que está metido, mesmo a mais adversa possível como a guerra do Vietname, pelo melhor ângulo: a lealdade, acima de tudo. Amar sem questionar nada, só por amar.

É inspirador, no mínimo.

É certo que o nosso herói tem uma mãe fora do comum. (1) Mas também é certo que ele já vem com essa marca registada, uma energia muito sua, que se orienta e depois se mantém nessa direcção. A sua bússula interior.

Foi assim com o primeiro e único amor. Que irá salvar a todo o lado, a todo o custo, mesmo contra a vontade dela!

Não há pedras suficientes, dirá ao vê-la um dia, desesperada, atirar pedras à casa agora vazia.

Foi assim com o amigo e companheiro no treino militar e depois no Vietname. Perderá o amigo naquela selva, mas trará outro às costas, mesmo contra a vontade do próprio! E como combinara com o amigo morto, irá dedicar-se à pesca do camarão.

 

O sucesso de Forrest Gump não é um puro acaso, como somos levados a pensar. O sucesso de Forrest Gump também não está na sua fortuna, surpreendentemente adquirida na pesca do camarão. O sucesso de Forrest Gump é ele mesmo! Uma raridade, em si mesmo. Uma inspiração.

Alguém à partida tão pouco talhado para a adaptação a um mundo áspero e competitivo, conseguir a autonomia e a vida familiar que Forrest construiu... Alguém que coloca o amor, a amizade, a lealdade, acima de tudo, conseguir conviver tão bem com um mundo cínico e desleal...

Zemeckis mostra aqui essa possibilidade.

 

Este é, para mim, o papel de Tom Hanks. (2)

A banda sonora, magnífica!

E os efeitos especiais, que incluíram sobreposições engenhosas com Forrest a inter-agir com personagens dos anos 60!

 

A parte mais hilariante: o pormenor da corrida de Forrest pelas estradas desertas, já seguido por uma multidão. Neste caso Forrest corre para apaziguar um desgosto. Um dia pára de repente, em plena estrada, deixando todos os que o seguem desorientados e confusos. É que a bússula tem de ser interior. Terão de a descobrir por si próprios.

 

É muito interessante a perspectiva do filme que fala da realidade de uma forma absolutamente original. É como se a perspectiva fosse mesmo essa: de que nos serve falar dos nossos abismos e desertos? O que interessa é a escalada e a travessia! Ultrapassar os condicionalismos, os obstáculos, os nossos medos, as nossas contradições. E a natureza humana, nisso, é exímia! Em situações-limite é capaz de se surpreender a si própria!

Também pode ser lido de um outro ângulo: as nossas vidas, por mais insípidas que sejam, já têm em si mesmas todos os ingredientes necessários, imensos mistérios por desvendar, abismos por escalar, desertos por atravessar.

Forrest Gump também nos mostra que a natureza humana procura, instintivamente, a sua sobrevivência, salvar a pele. É para escapar à violência de matulões agressivos que Forrest começa a correr. A partir daí, ninguém mais o pára. Corre no campo de futebol. Corre em plena selva no Vietname. E corre estrada fora.

É também esta ideia essencial da acção: perante uma situação, age, segue o seu instinto. Também é engraçado pensar que foram as adversidades que lhe deram o primeiro empurrão.

 

 

 

(1)  O olhar da mãe que o aceita tal como é, que vê as suas qualidades e potencialidades, que não o reduz e limita. A mãe é a primeira a instilar nele a ideia das possibilidades. Perante uma situação, o que se pode fazer?

(2)  E também o papel de Gary Sinise.

 

 

 

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publicado às 17:23


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